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sábado, 24 de abril de 2010

Mais Solidão, Menos Prozac


Estava eu sexta feira a noite lendo "Ensaios sobre o amor e a solidão" quando tive a sensação de que tudo que o autor Flávio Gikovate disse gostaria eu de ter dito. Na verdade eu disse, mas não com a clareza que ele colocou. O tema do amor é recorrente, para mim, porque, ao meu ver, está intimamente ligado à liberdade. Muito embora, se me for pedido para definir liberdade não saberei fazê-lo. Liberdade e amor são realidades (ou criações humanas, nem sei) que por desequilibrarem-se quando juntas, estão causando o fenômeno solidão. E se você pensou que isso é negativo, engana-se! Acontece que cada vez mais as pessoas tem percebido o quanto é nocivo certos amores (a grande maioria) pela relação de dependência que causam e aí preferem estar sozinhos. Se é para estar acompanhado em um movimento simbiótico, é preferível o autismo como estilo de vida. Percebem que, na maioria das vezes, o que as uniu a seus pares foi o sentimento de inferioridade ainda mascarado, eventos fragilizadores que deixam o cupido fazer a festa. Ora, se o fenômeno amoroso é causador da destruição da pouca liberdade psíquica que nos resta vivendo nessa sociedade, para que continuar com ele? Nao seria mais interessante construir outras formas de relacionamento onde primeiramente fossem fortalecidos os laços individuais consigo mesmo? Diferente de Caio Fernando Abreu ao escrever "estou me transformando em um ser humano meio viciado em solidão. Não sei mais falar, abraçar, dizer coisas simples como "eu gosto de você".", este ser humano que agora emerge estaria mais apto para o amor, uma vez que primeiramente respeitou a construção tão árdua de sua individualidade.

3 comentários:

Grazi disse...

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."
Joao Cabral de Melo Neto



É intrigante, em paralelas andam amorXliberdade, palavras encantadoras, mas aparentemente incompatíveis. Conceitualmente não acredito que assim o seja, um ser livre, tendo sua individualidade cultivada, tem seus ramos afetivos mais profundos, já que toma a si mesmo por base, só um ser livre, com a amplitude de ser respeitada, é capaz de provar o amor. Como vc diz, Renata, a origem desse "amor", deve ser questionada como também sua permanencia. Complicado já é ser. Para tornar-se nós? Parece que o eu fica desconfortavel, "eu(eu)+eu(vc)", não! tem que ser "nós"!muitos largam o eu em algum lugar ermo, através de sutis concessões diárias. Uma dependencia emocional, começa a se gerar, depender do outro, já q vc se desfez de vc mesmo. É ai que dá-se a contradição amorXliberdade, dependência, posse, carências, fraquezas, tornam o amor menos, torna-nos menos consequentemente. Quando vale deixar-se para partir em busca do outro, esvaziando-se p beber numa fonte de pureza questionável? Lógico que não só há relações vampirescas(tá na moda vampiros :p), relacionar-se é um pressuposto da condição humana, e é lindo, o afeto, o carinho, o companherismo, a cumplicidade, olhos nos olhos, isso o mundo autista não pode ofertar.
Só que há momentos, minha amiga, que nós mesmos somos nossa cura. E depois de sãos, vamos nos somar ao mundo.


"O seu amor, Ame-o e deixe-o livre para amar, livre para amar. O seu amor, ame-o e deixe-o ser o que ele é, Ser o que ele é..." Gilberto Gil

Tayná disse...

Tomo totalmente pra mim!

Jéh mOraes disse...

Escreve muitíssimo bem,adorei.